quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pensintir – Parte 1

Olho para o fogo da cidade e o que vejo são lampejos de saudade que concentram toda a angústia das folhas que caem e não mais podem sentir a seiva percorrer seus corpos. Na noite em que tudo aconteceu, estava adormecida em meu sonho, havia perdido a ilusão da vida. Deixar para trás o que desejava como futuro era como a aniquiliação de algo que eu ainda não me sabia. Como fazer porém nesse redeminho de seguir que me impele para frente, ainda que eu tente retornar? No retorno impossível, fundamento a força inabalável de todas as certezas que o mundo me doa, sabendo de ante mão, que não poderei jamais sentí-las em mim.

As certezas me angustiam e me fazem sentir o partido da vida que por ser assim, me impossibilita enquanto possibilidade. O que fazer? A palavra me vem sem nexo e sigo aqui escrevendo o que não sei, apenas na tentativa de explicação daquilo que não posso explicar.

Meus dedos seguem na pintura infinda do papel que de branco se condensa sangue e me desuda sem definição. Este algo que não se define e no qual, desde que morri, vivo, me lança na incerteza do caminho que caminho.

Quando o sol estava a adormecer, com ele, desejava o longe, onde pudesse encontrar o desencontro do algo que em mim habita. Matéria corpo de um útero que não somente é biológico, mas configura-se visão de mundo a partir do que não posso ver. Para que ver o que sou, se em momentos levíssimos sinto a brisa da vida tocar meus lábios e dizer baixinho: – Você é minha... – Não quero seguir mais como se estivesse à par de... Lambe-me a face o vento e diz quem sou no mistério do azul. Este mesmo azul de que é feito meu sangue, é tela na qual a vida desenha suas desformas contínuas.

O telefone ao tocar me chama para uma realidade que não é a minha. Mas haverá outra realidade? O que é realidade? Será que apenas estou inserida nela? Mas nela quem ou o quê? A realidade das coisas é sua própria aparição, para que procurarmos mais? A realidade de mim está naquilo que pensinto e ao fazê-lo existo. Pensinto logo existo.

Meu coração bate e não precisa de mim. Meu fígado purifica-me de meus pecados mais imundos e não me pede penitência por isso. Meu pulmão, meu amigo, arrasta a vida para dentro e me faz perceber que, por termos corpo, somos sendo. Meu útero, minha alma, visão de mundo irrompida em sensações que não posso controlar. Estou com dores, cólica, o sangue escorre e minha alma chora... Toda a preparação se esvai. É o fim. O ciclo do fim terá fim apenas quando eu perceber que sou útero e este é meu grande destino. Criação-entranhas, placas, sangue, dor. Eis por que sou.

domingo, 20 de setembro de 2009

... túmulo de flores amarelas e medrosas...

Medo. Grande deus das almas frágeis e fracas. Alimenta-se da insegurança e incerteza alheia. Com seu corpo forte e acolhedor, convida-nos a sentar em seu colo e nele adormecer. Com suas mãos delicadas venda nossos olhos e nos faz esquecer aquilo que poderíamos ser. Engravida-nos com sua frustrada esterilidade e, ao final, recebemos apenas o aborto em vida de nós mesmos.
Geralmente confundido com a Morte, é, no entanto, seu grande inimigo. Pois a Morte admira a coragem, o Medo, por outro lado, proclama a covardia. Por isso, há um grande equívoco na expressão "medo da morte" ou "medo de..." seja lá do que for. É preciso atentar que o núcleo é sempre ele, o Medo. Tal estratagema é, desde o início, por ele fingido para nos iludir de sua pouca importância. Com isso, fica a Morte condenada a mais essa responsabilidade.
Mas atenção à perspicácia do Medo, pois, assim como os outros deuses, ele também concentra toda a sua essência no agir primordial, podendo com isso atuar em nós.
Na ilusão daquilo que pensamos ser, ele nos diz: "Não, estas enganado. Pois nem isso és. Tu és absolutamente destituído de sentido e possibilidade. Entregue-se a mim e terás a glória. A glória da certeza de que todos devem se contentar em apenas ser Ninguém. Vem. Aconchege-se em meu colo, e lhe darei abrigo. Em troca, povoe e governe meu mundo dando-me até o que não tens."
Uma vez sentados, jamais saímos. E os que saem, carregam as marcas de uma vida não vivida. Para os que lá decidem ficar resta apenas a cadavérica realidade da frustração, da violência... do desamor. O próximo se torna o maior dos problemas e a solução é arrastá-lo, também, para o colo do medo. Feito isso, as colônias anti-humanas são criadas e assim se perpetua o império do maior inimigo da Vida e da Morte. Medo.

Parte III

: calma, eu estou aqui! Segura a minha mão, não tenha medo. Estou com você desde antes de você existir. Amo-te sem precisar tocá-la. Não tema. Não tema. Nem diga teu nome. No inominável nos reconhecemos e somos nuvem: encontro amoroso de água e ar, sexo febril a olhos nus. Todos nos veem, poucos nos sentem. Porção de mar e terra e fogo e... alma. Calma. Toque meu rosto, minha lama. O calor que escorre é já precipício de chuva. Enxurrada de gozo, o nosso gozo na terra fértil a engravidar. Ternura.