Olho para o fogo da cidade e o que vejo são lampejos de saudade que concentram toda a angústia das folhas que caem e não mais podem sentir a seiva percorrer seus corpos. Na noite em que tudo aconteceu, estava adormecida em meu sonho, havia perdido a ilusão da vida. Deixar para trás o que desejava como futuro era como a aniquiliação de algo que eu ainda não me sabia. Como fazer porém nesse redeminho de seguir que me impele para frente, ainda que eu tente retornar? No retorno impossível, fundamento a força inabalável de todas as certezas que o mundo me doa, sabendo de ante mão, que não poderei jamais sentí-las em mim.
As certezas me angustiam e me fazem sentir o partido da vida que por ser assim, me impossibilita enquanto possibilidade. O que fazer? A palavra me vem sem nexo e sigo aqui escrevendo o que não sei, apenas na tentativa de explicação daquilo que não posso explicar.
Meus dedos seguem na pintura infinda do papel que de branco se condensa sangue e me desuda sem definição. Este algo que não se define e no qual, desde que morri, vivo, me lança na incerteza do caminho que caminho.
Quando o sol estava a adormecer, com ele, desejava o longe, onde pudesse encontrar o desencontro do algo que em mim habita. Matéria corpo de um útero que não somente é biológico, mas configura-se visão de mundo a partir do que não posso ver. Para que ver o que sou, se em momentos levíssimos sinto a brisa da vida tocar meus lábios e dizer baixinho: – Você é minha... – Não quero seguir mais como se estivesse à par de... Lambe-me a face o vento e diz quem sou no mistério do azul. Este mesmo azul de que é feito meu sangue, é tela na qual a vida desenha suas desformas contínuas.
O telefone ao tocar me chama para uma realidade que não é a minha. Mas haverá outra realidade? O que é realidade? Será que apenas estou inserida nela? Mas nela quem ou o quê? A realidade das coisas é sua própria aparição, para que procurarmos mais? A realidade de mim está naquilo que pensinto e ao fazê-lo existo. Pensinto logo existo.
Meu coração bate e não precisa de mim. Meu fígado purifica-me de meus pecados mais imundos e não me pede penitência por isso. Meu pulmão, meu amigo, arrasta a vida para dentro e me faz perceber que, por termos corpo, somos sendo. Meu útero, minha alma, visão de mundo irrompida em sensações que não posso controlar. Estou com dores, cólica, o sangue escorre e minha alma chora... Toda a preparação se esvai. É o fim. O ciclo do fim terá fim apenas quando eu perceber que sou útero e este é meu grande destino. Criação-entranhas, placas, sangue, dor. Eis por que sou.
